Resolveu que nunca mais iria almoçar sozinho. Chegava ao
self-service, montava o prato e procurava mesas de duas pessoas ou quatro, só
para perguntar se uma das cadeiras estava livre. A maioria era educada, um ou
outro pouco polido fazia um olhar de cai fora. Sentava-se e sempre puxava papo.
No início era sobre o tempo, esfriou né, depois futebol. Desistiu do futebol
porque era polêmico demais, e tinha decidido que nunca mais comeria a sós
exatamente para tentar colocar um pouco mais de sentimento gregário naquele
horário entre meio-dia e duas. Começou a notar que o conteúdo do prato
influenciava no assunto. Comida gordurosa enveredava por política, terrorismo,
filmes franceses. Pratos leves passeavam por pseudo-celebridades, moda,
seriados cômicos e comédias românticas de Hollywood. Conheceu gente bacana, gente
chata, e muita, mas muita gente mais ou menos. Começou uma sistematização
obsessiva: anotava local, nome das pessoas que tinham aceitado, e a nota do
papo. Depois de um ano, viu que a média era baixa. As companhias bacanas puxavam
a nota para cima, mas a grande maioria, sem sal, deixava a nota geral por volta
de 2,5. Chegou à conclusão de que, apesar de nunca mais ter almoçado sozinho, o
benefício não tinha sido lá essas coisas, para o plano que tinha elaborado:
conhecer gente nova, passar por experiências interessantes, aprender mais,
adicionar um pouquinho mais de tempero à necessidade básica do se alimentar.
Num feriado, self-service com pouquíssimos clientes, prato na mão procurando
uma mesa ocupada em meio a tantas vazias, o prato estava preparado para um papo
cabeça: costelinha, feijão e torresmo. Comeu um pedaço de torresmo ainda em pé,
quando engasgou-se. O ar foi faltando, não conseguia respirar. A última coisa
que sentiu foram fortes tapas nas costas de um dos clientes que estava sozinho
em uma mesa.
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