quarta-feira, 10 de julho de 2013

Hora do Almoço.

Resolveu que nunca mais iria almoçar sozinho. Chegava ao self-service, montava o prato e procurava mesas de duas pessoas ou quatro, só para perguntar se uma das cadeiras estava livre. A maioria era educada, um ou outro pouco polido fazia um olhar de cai fora. Sentava-se e sempre puxava papo. No início era sobre o tempo, esfriou né, depois futebol. Desistiu do futebol porque era polêmico demais, e tinha decidido que nunca mais comeria a sós exatamente para tentar colocar um pouco mais de sentimento gregário naquele horário entre meio-dia e duas. Começou a notar que o conteúdo do prato influenciava no assunto. Comida gordurosa enveredava por política, terrorismo, filmes franceses. Pratos leves passeavam por pseudo-celebridades, moda, seriados cômicos e comédias românticas de Hollywood. Conheceu gente bacana, gente chata, e muita, mas muita gente mais ou menos. Começou uma sistematização obsessiva: anotava local, nome das pessoas que tinham aceitado, e a nota do papo. Depois de um ano, viu que a média era baixa. As companhias bacanas puxavam a nota para cima, mas a grande maioria, sem sal, deixava a nota geral por volta de 2,5. Chegou à conclusão de que, apesar de nunca mais ter almoçado sozinho, o benefício não tinha sido lá essas coisas, para o plano que tinha elaborado: conhecer gente nova, passar por experiências interessantes, aprender mais, adicionar um pouquinho mais de tempero à necessidade básica do se alimentar. Num feriado, self-service com pouquíssimos clientes, prato na mão procurando uma mesa ocupada em meio a tantas vazias, o prato estava preparado para um papo cabeça: costelinha, feijão e torresmo. Comeu um pedaço de torresmo ainda em pé, quando engasgou-se. O ar foi faltando, não conseguia respirar. A última coisa que sentiu foram fortes tapas nas costas de um dos clientes que estava sozinho em uma mesa. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário