Morava sozinho e resolveu que precisava cuidar de alguém. Um
cachorro daria trabalho demais. Um gato, trabalho de menos. Além do quê, não gostava
de gatos. Um peixe era muito sem graça. Resolveu comprar uma planta. Morava num
apartamento térreo, plantou na sacada da janela da sala, que dava para a rua,
banhada pela luz da manhã. Acordava todos os dias e regava, com carinho.
Pesquisava na internet a melhor maneira de cuidar, quis até comprar adubo, mas
não era indicado. Só água e amor, dizia o pessoal do blog Dedos Esverdeados.
Foi fazendo como recomendado e, numa irônica segunda-feira, viu o primeiro botão
de flor surgir. Ficou contente, regou a planta até demais. Já pelo
terceiro dia o botão tinha desabrochado. Estava feliz que finalmente toda
aquela dedicação tinha sido correspondida. Tirou foto, postou no instagram, foi
trabalhar animado, voltou pra casa, deu um boa noite mental para a planta, porque ficou sem graça de falar alto com ela. Dormiu
com um sorriso no rosto. No dia seguinte, acordou para observar o objeto do seu
cuidado. Não estava mais lá. Colocou a cabeça pra fora da janela. Tinha sido
traído: a flor estava fugindo nas mãos de uma menina, quase virando a esquina.
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