segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Novela.

- Fernandão, tô vendo minha vizinha aqui pela janela.

- Que é isso, cara? Tá espionando?

- Não, ela nem tá percebendo, a janela dela não tem persiana nem cortina.

- Mas ela tá pelada?

- Não, tá vestida, assistindo TV.

- Essa mulher vai ver você. Ela vai chamar a polícia.

- Relaxa, eu tô escondido aqui. Acho que ela não vai notar.

E o Marcos passou a assistir a vizinha todos os dias. Chegava do trabalho, olhava pela janela e ela estava lá. Ela, noveleira assídua. Ele, vendo sua novela particular. Meio monótona, é verdade: só tinha uma personagem, que ficava a maior parte do tempo sentada, assistindo TV. Não era bonita, nem feia. Mas havia um fascínio qualquer em observar aquela desconhecida.

Criou um nome para ela, achava que tinha cara de Marta. Torcia para alguma coisa acontecer. O roteiro estava fraco, faltava dinâmica. Os figurinos mudavam, desejava que um dia ela surgisse de camisola, ou calcinha e sutiã, mas o máximo que viu foi uma camiseta larga. Mesmo assim, ele não desgrudava os olhos.

Aquilo durou meses. No dia do último capítulo da novela, ela chorou. Puxou um lenço de papel, passou nos olhos, assoou o nariz. O capítulo acabou, ela se levantou, desligou a TV e saiu da sala.

No dia seguinte, Marcos chegou em casa e foi para a janela. O apartamento estava vazio. Marta nunca mais apareceu. 

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