Turbulência.
Sacudidas, descidas bruscas. Os passageiros todos nervosos, tentando parecer
calmos. Impossível ler. O rapaz dos fones de ouvido Dr. Dre até os tira da
cabeça. Todos tentam esmagar com as mãos o que estiver ao alcance: braços de poltronas,
outras mãos. O sinal de atar cintos parece mais aceso do que nunca. Apenas uma criança
dorme, alheia a tudo. Pelas janelas, não se vê nada, só o cinza meio oleoso, quase
sólido, com a certeza da noite por trás daquilo tudo. A luz da asa pisca,
só para aumentar a apreensão: cada pequeno lampejo mostra o nada. Uns rezam.
Uma senhora deixa escorrer uma lágrima. E a criança nos braços de Morfeu. A
tortura dura intermináveis 5 minutos, nos quais a relatividade do tempo mostra
todo seu lado prático: 30.000 centésimos contados em slow motion. Depois de uns
instantes, o balanço começa a diminuir. Mãos se desapertam, a tensão desanuvia.
As janelas começam a revelar luzinhas acesas na cidade lá embaixo. O avião pára
de balançar. A criança acorda e cai no choro.
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