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Fernandão, tô vendo minha vizinha aqui pela janela.
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Que é isso, cara? Tá espionando?
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Não, ela nem tá percebendo, a janela dela não tem persiana nem cortina.
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Mas ela tá pelada?
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Não, tá vestida, assistindo TV.
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Essa mulher vai ver você. Ela vai chamar a polícia.
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Relaxa, eu tô escondido aqui. Acho que ela não vai notar.
E
o Marcos passou a assistir a vizinha todos os dias. Chegava do trabalho, olhava
pela janela e ela estava lá. Ela, noveleira assídua. Ele, vendo sua novela
particular. Meio monótona, é verdade: só tinha uma personagem, que ficava a
maior parte do tempo sentada, assistindo TV. Não era bonita, nem feia. Mas
havia um fascínio qualquer em observar aquela desconhecida.
Criou
um nome para ela, achava que tinha cara de Marta. Torcia para alguma coisa
acontecer. O roteiro estava fraco, faltava dinâmica. Os figurinos mudavam, desejava
que um dia ela surgisse de camisola, ou calcinha e sutiã, mas o máximo que viu
foi uma camiseta larga. Mesmo assim, ele não desgrudava os olhos.
Aquilo
durou meses. No dia do último capítulo da novela, ela chorou. Puxou um lenço de
papel, passou nos olhos, assoou o nariz. O capítulo acabou, ela se levantou,
desligou a TV e saiu da sala.
No
dia seguinte, Marcos chegou em casa e foi para a janela. O apartamento estava vazio.
Marta nunca mais apareceu.
duca.
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