O
rapaz aproveitava o sinal fechado para vender bolinhas de sabão. Um cilindro
plástico com o líquido dentro, a tampa com o aro pronto para ser soprado. As
bolhas voavam em meio aos automóveis e aos motoristas impacientes, que não
davam a menor bola para aquilo. O rapaz sorria e soprava as bolhas, acreditando
na simpatia como poder de venda. Algumas crianças dentro dos carros pediam aos
pais, "é só 5 reais", mas o dia não era para poesia. Quando o sinal fechou de
novo, um taxista distraiu-se com as bolhas. Passou a acompanhar os movimentos,
pra onde subiam ou desciam, onde estouravam. Deu uma viajada naquilo, o olhar fixo
nelas, o fundo cheio de fios, concreto e fumaça totalmente desfocado. Uma
buzina o tirou do transe. O sinal tinha esverdeado. Mais buzinas. O passageiro
reclamou. O taxista virou-se para ele e disse: “um instante”. Abriu a janela, tirou
5 reais da carteira, deu ao vendedor e partiu sem levar o brinquedo, deixando
os palavrões para trás.
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