quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
Morena.
Ele sonhou com ela. Estava morena, bem morena, em uma praia. Cercada de gente, muitas pessoas em volta. Homens, mulheres. E ela dando atenção a todos. Vários a cortejavam, trocavam olhares. Ele via a cena afastado, mas também tinha muita gente ao redor. Rindo, cumprimentando, chamando a atenção dele, mostrando novidades, querendo estar próximos. Os dois se observavam de longe. Por mais pessoas e vendedores e barracas e sol e homens e mulheres e grãos de areia e tudo que estivesse atrapalhando, o olhar dos dois sempre se encontrava. Havia, em especial, um rapaz mais próximo dela. Não saía de perto. Mas ela não olhava mais para o rapaz, e sim para ele, distante. Os olhares se cruzavam mais e mais, até que ela finalmente sorriu. Para ele. Morena, como ele nunca tinha visto, os dentes brancos se destacando na moldura do rosto. Então ela saiu do grupo, veio andando em sua direção, sorrindo, como nunca havia sorrido. Piscou os olhos, demoradamente, em câmera lenta. E ele percebeu que estava sonhando. Era aquele momento do sono em que você se dá conta de que nada é real, mas continua dormindo assim mesmo, sem querer despertar. Aí deu-se algo curioso: o grupo de pessoas foi sumindo, a multidão esvanecendo, como se tudo ali passasse a pertencer a outro sonho, de outra pessoa. Ela chegou perto dele, morena como nunca, e o abraçou, na ponta dos pés, aconchegada, encostando a cabeça em seu peito. Ele acordou. No dia seguinte, lembrou-se do tom da pele dela. Comprou um chocolate tão moreno quanto e deixou de presente, sobre mesa do trabalho. E tratou de comprar um protetor solar para si.
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