terça-feira, 12 de novembro de 2013

Atrasado.

Ele chegava sempre atrasado. Para tudo. Na escola, os filhos já estavam acostumados. Fim da aula às 17h, o pai passava às 18. Esperavam com o vigia da escola, sabiam de cor e salteado suas histórias. De manhã, acordava às 7h30, mas não conseguia chegar ao trabalho antes das 10. Experimentou acordar meia hora antes, mas chegava no mesmo horário. Certa ocasião acordou às 5 da manhã, mas além de só conseguir chegar às 10, passou o dia inteiro sonolento. O chefe, reconhecendo sua competência, era compreensivo. Deixava-o sair uma hora depois, compensando o tempo. As sessões de cinema eram um problema. Se começavam às 16h, ele chegava às 17h. Se eram às 20h, chegava às 21h. Foi ao médico. O diagnóstico: tinha um problema sério de fuso horário. Resolveu mudar-se para a Bahia, onde segundo o senso comum, as coisas eram sempre atrasadas. Além disso, lá não havia horário de verão, que para ele era um terror, pois acordava uma hora mais cedo, mas chegava sempre às costumeiras 10 no serviço. Terminada a mudança, para comemorar, resolveu ir ao cinema. Escolheu a sessão das 19h, com tempo para uma pizza com a família depois. Chegou às 20, entrou na sala. O filme tinha começado no horário do cartaz, mesmo. Ficou indignado, juntou tudo e foi para a Islândia, 2h de fuso horário a mais. Todos os dias, ficava uma hora passando um frio cão, esperando o vigia do trabalho chegar com a chave às 9. 

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