O
sujeito tinha um carma irritante. Nunca, jamais, em tempo algum, conseguia um primeiro
carrinho que funcionasse. Carrinho de supermercado: o primeiro que ele escolhia
tinha a roda presa. Carrinho de aeroporto: o primeiro que ele puxava estava
preso no da frente. Sempre tinha que se contentar com o segundo carrinho. Tentou enganar a maldição. Chegava para fazer
compras, ia com a mão no carrinho que tinha escolhido e, no último momento, trocava.
Não dava certo, o carrinho continuava a ter problema. O carma podia ser
ridículo, mas não era burro. E as consequências já tinham sido sérias. Quando
criança, no parque de diversões, foi ao bate-bate. Seu carro não saiu do lugar.
Tomou porrada dos outros a torto e a direito e ficou traumatizado: nunca
conseguiu tirar carteira de motorista. Tentou a terapia. O psicanalista disse
que aquilo era da cabeça dele, que procurasse algo para relaxar. Foi pescar com
os amigos no Mato Grosso, num local famoso por muitos peixes. Os outros foram
fisgando um a um, e ele nada. Passou o fim de semana, todos encheram seus
isopores, menos ele, que não pegou nem resfriado. Um dos amigos brincou: “é
carma”. No domingo à noite, já no aeroporto para pegar o voo de volta, ele puxou
o primeiro carrinho de bagagem. Não funcionava.
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